quarta-feira, 4 de novembro de 2009

2º PARTE



2º parte
UM MILAGRE

Um dia depois, a tarde Maria comparece junto de Olga no leito de Cássio. Caio estava com ele, o jovem estava deitado de bruços, quando viu Maria não escondeu a felicidade em seu sorriso, ele pediu a ajuda do pai para levantar-se e abraçou sua amiga. Para Olga aquela reação era uma surpresa, afinal até onde ela conhecia seu próprio filho? Mas sem buscar a resposta ela prefere e se concentrar em outra questão.

- Querido, me conte tudo que aconteceu, o exame, ele tomou algum remédio?

- Vamos com calma querida – Respondeu Caio, e afastou sua esposa de Cássio.

- Meu anjinho, eu queria trazer umas guloseimas, sua mãe não deixou.

- Eu sei, Maria, isso aqui parece uma fortaleza cientifica, só se pode comer o que eles mandam.

- por que você estava deitado de costas daquele jeito, fizeram alguma cirurgia em você?

A pergunta de Maria fez com que o sorriso se desfizesse, por instantes ele fechou os olhos e se viu mais uma vez na sala da coleta, em segundos lembrou-se de tudo. Quando o mandaram deitar de bruços e permanecer imóvel, limparam com um anticéptico sua pele na região da bacia, era frio, os enfermeiros tentavam descontrair conversando, mas não conseguiam deixá-lo confortável ou seguro. Um anestésico foi aplicado na região, outra enfermeira se aproxima com uma bandeja contendo agulhas, seringas e objetos de vidro. Cássio fechou os olhos e buscou segurança em outro ser. Em seus pensamentos Senhor meu refugio, minha fortaleza, meu Deus eu confio em ti, o Senhor me livrará do laçador e da peste destruidora, o senhor me protegera com suas penas e debaixo de suas asas me refugiarei, seu braço é escudo e armadura não temerei o terror da noite”SALMO 91 versic1 a 5. ele abriu rapidamente os olhos e viu que uma seringa estranha com uma agulha bem maior que as normais estava nas mãos do enfermeiro, ele prefere ficar de olhos fechados, apesar de anestesiado, ele percebe quando a agulha é introduzida, a mão do enfermeiro o segura com cuidado tentando estabilizar os movimentos, ele sente uma forte pressão, o primeiro sinal de dor, o objeto que o penetrava fazia pressão em movimentos circulares, parecia um broca perfurando seu osso. A pressão parou, ele permaneceu de olhos fechados. O mandril foi removido e uma seringa contendo anticoagulante foi acoplada, uma forte pressão negativa foi aplicada, era a aspiração feita através do embolo da seringa sendo puxado varias vezes. O desconforto fazia com que o jovem se desconcentrasse de sua oração e varias vezes gemeu em protesto pela dor, logo o processo foi finalizado, a medula óssea foi coletada com sucesso.

Maria percebeu uma lagrima se revelando, aquela lembrança seja La do que for estava maltratando seu anjinho, ela o abraçou forte. Nada mais perguntou.

Caio conversava com Olga na cantina do hospital.

- Amor, quanto tempo leva pra termos os resultados desse mielograma?

- Querida eu já ataquei os enfermeiros desse hospital com mais perguntas do que você possa contar, os médicos estão preocupados com a anemia avançada de nosso filho...

- Avançada? Perguntou Olga segurando o esposo pelas mãos – como assim avançada, Caio?

- Hei! Querida, tanta se conter, por favor, por enquanto ainda não há riscos de morte, eles estão apressando os resultados, mas pelo visto isso levará uns três dias, parece que nosso garoto, alem de anêmico ta com a coagulação sangüínea baixa, por isso sangra pelo nariz. Os desmaios me deixam preocupado, os médicos preferem deixá-lo internado até que se confirmem os exames. O que se sabe pela ordem dos acontecimentos que se trata de uma leucemia.....

Caio suspirou naquele momento, finalmente o emocional sobrepôs a razão, ele abraçou sua esposa e chorou, como um garoto indefeso, afinal era seu único filho, exposto a uma doença mortal, aquele era um momento de todos ficarem unidos, pensou Olga, mas era difícil não emorcionar-se. Eles voltam para o quarto e se surpreendem ao ver o jovem debruçado sob o colo de sua amiga Maria que estava sentada na cama afagando as mechas loiras de seu anjo.

- Filho, preciso que você decida algo.

Cássio percebeu que os olhos de sua mãe haviam derramado lagrimas recentemente.

- Camila?

- É ela, liga sem parar querendo noticias, e como sua namorada ela tem o dever de se preocupar.

- Mãe, não quero que ninguém saiba do que se passa até que se confirme tudo – Disse Cássio levantando-se e caminhando até a janela do quarto – a ultima coisa que preciso agora é o olhar de pena das pessoas ou lamentos e palavras decoradas de conforto.

- Não posso concordar com você, filho – disse Caio com expressão reprovadora – Camila está sofrendo por você, não é justo tratá-la dessa maneira...

- Verdade, o senhor tem razão! – disse Cássio apontando pra fora da janela.

Todos se aproximaram para ver o que se passava, e na rua ao lado do hospital havia um grupo de jovens acenando, uma garota que estava sob os ombros de um rapaz levantava uma cartaz que dizia “ CÁSSIO NÓS TE AMAMOS, TENHA FÉ, JESUS TE AMA E VAI TE ABENÇOAR” , a garota era Camila junto de seus amigos do ministério de musica. Em casos como aquele as visitas eram restritas, mas ela havia improvisado outra forma de se comunicar, pois estava tentando contato por telefone, mas não conseguia resultados. Cássio logo desconfiou de como ela soube em que hospital ele estava, olhou fixo para Maria, e ao desviar seu olhar ela se denunciou. Mas naquele momento isso já não importava, ele sabia o quanto Maria se importava com o sentimento das pessoas, imaginou o quanto Camila deve ter insistido ou até mesmo chorado pra ter aquela informação. Mas que importância havia nisso, Cássio acena para o grupo, todos fazem a maior zoeira comemorando a atenção do rapaz.

Seria impossível manter segredo sobre o assunto, a noite daquele mesmo dia Olga se dirigiu a Assembléia da igreja para dar um testemunho de tudo que se passava com a saúde de seu filho. Cássio permanece internado por ordens dos médicos que o acompanham, dois dias se passam, uma transfusão de sangue foi feita, a anemia estava em um estagio critico. E a tarde do terceiro dia Dr Edmilson comparece ao hospital acompanhado da Dra Héllem, que acompanharia Cássio no tratamento a partir daquele dia, Caio e Olga os acompanharam ate uma sala para uma conversa particular, enquanto Maria e Camila acompanhavam Cássio. Sem saber que o resultado do mielograma estaria sendo discutido naquele instante.

Médicos e pais sentaram para conversar em uma sala de visitas do hospital. Dr Edmilson inicia a conversa estendendo o laudo dos exames para Caio. Que o lê, mas pouco compreende os termos descritos.

- Perdão irmão Edmilson, mas pouco compreendo o que diz o exame.

- O que suspeitávamos, irmão Caio, Cássio é portador de Leucemia Mieloide Aguda, tentarei explicar com calma, ouçam com atenção, pois seu conhecimento do assunto será muito importante nas etapas de tratamento:

“ leucemia é um tipo de doença maligna, um Câncer, que se inicia na medula óssea e depois se espalha pela corrente sanguínea. É resultado de uma deficiência adquirida, não herdada, no DNA das células em desenvolvimento na medula óssea, pra quem não sabe a medula óssea é popularmente conhecida como tutano, aquela substancia gordurosa contida no interior dos ossos. É na medula que são produzidas as células sanguíneas do nosso corpo, com esse tipo de leucemia essas células não perdem sua capacidade de reprodução, mas seu processo de formação é incompleto, e estas acabam perdendo a capacidade de realizar suas funções no nosso organismo. Tentem visualizar a gravidade da situação, as células atingidas realizam funções vitais em nosso organismo como a cicatrização, defesa contra infecções e doenças, distribuição de oxigênio a nosso corpo. Cássio se encontra em um estado alarmante que necessita de cuidados imediatos, o sangramento pelo nariz já é resultado de uma grave deficiência em suas plaquetas sanguíneas, isso pode causar hemorragias com muita facilidade, a falta de hemácias resultam na anemia e desmaios como também a falta de disposição, seus glóbulos brancos também foram gravemente afetados, isso o torna vulnerável a todos os tipos de doenças, para preveni-lo disso teremos que isolar o rapaz do contato de risco o quanto antes, visitas terão que ser evitadas e restritas aos parente mais próximos, isso sob todo o cuidado”

- Perdão! Irmão Edmilson – fala Olga – o senhor falou em iniciar o tratamento imediatamente, esse ... câncer, como podemos tratá-lo? Existe tratamento aqui nesse hospital?

- Existe sim senhora- interrompeu Dra Hellem- eu pretendo iniciá-lo, o quanto antes. Mas essa conversa está sendo realizada para que vocês saibam que o tratamento as vezes consegue ser mais difícil de suportar que a própria doença.

Olga logo se revelou preocupada com as palavras da doutora.

- o que a senhora quer dizer exatamente com isso?

- Dona Olga, seu filho será submetido a um tratamento de Quimioterapia, ministraremos um composto de substancias para tentar levá-lo ao que chamamos estado de remissão, que basicamente significa destruir o Maximo de células defeituosas que pudermos. Mas esse tratamento será feito em etapas. Seu menino terá que ser forte para resistir ao tratamento, que por experiência eu lhes digo que não atinge só o corpo, mas toda a estrutura psicológica da pessoa, quer pelos efeitos colaterais ou pelos traumas por eles gerados.

Eles escutaram tudo, e fizeram muitas perguntas por toda à tarde, Cássio passou por outros exames, até que depois de dois dias o tratamento finalmente começa. Os médicos pediram que se implantasse um cateter em uma artéria do rapaz. Esse era um objeto que tinha por finalidade ser um canal aberto para ministrar substancias diretamente na artéria do paciente sem que ele precisasse ser perfurado todas as vezes que recebesse medicamentos ou mesmo transfusões de sangue. O uso desse objeto foi sua primeira dificuldade, pois a idéia de ter um objeto implantado em seu braço era incomoda, assim como tornava seus movimentos limitados, durante cinco dias ele receberia cinco doses da quimioterapia, já no primeiro dia o jovem apresentou tonturas, vômitos e dores de cabeça.

Ao segundo dia Caio precisou levá-lo carregado ao banheiro, pois já não conseguia andar normalmente. Nesse dia o jovem se negou a comer, e a cada tentativa forçada ele vomitava tudo, sempre chorava muito. Para Caio que sempre o acompanhava era muito difícil não se desesperar ao ver o filho se entregar ao sofrimento daquele jeito.

No terceiro dia Cássio preocupou a todos, pois parecia não apresentar sentimentos nos olhos, parecia se entregar completamente ao sofrimento. Dessa vez era Caio que não se alimentava, aquele pai mesmo com todo o seu amor, estava atingindo seu limite. Os médicos pediram pra que ele ficasse em casa naquela noite. Ele não aceitou, mas logo se percebeu exausto demais para ajudar, poderia na verdade atrapalhar se ficasse doente. Pediu aos enfermeiros que dessem atenção especial ao filho e foi pra casa.

Naquela noite ele chegou em casa e encontra sua esposa em oração no quarto, e a interrompe.

- Olga, nosso filho ta se entregando a morte, vou tomar um banho, depois quero te acompanhar e orar junto, sinto que agora precisaremos de um milagre.

Olga não responde, se ajoelha próximo da cama, abre sua bíblia e de olhos fechados busca socorro no ser que ela acreditava ser sua maior esperança.

senhor meu Deus, senhor do impossível, escuta, por favor o clamor de uma mãe desesperada, que te suplica e implora por socorro, sei senhor o quanto sou pequena meu Deus diante da tua Gloria, mas hoje estou fraca e desesperado por ver meu filho caminhar na direção da morte, senhor afasta esse cálice de meu filho, preferia sofrer dez vezes mais tudo isso meu Deus a ver meu menino chorar...”






No instante em que Olga ora, no hospital a enfermeira Eliza tenta alimentar Cássio, mas ele se nega a comer, já sem paciência ela desiste de tentar e volta com o alimento para o refeitório, ali estavam os enfermeiros do setor infantil em seu intervalo, Eliza é avistada por um colega que vai até ela e a cumprimenta.

- Oi minha amiga, por que essa cara de tristeza?

- Oi Elton, não é tristeza, to com um paciente portador de Leucemia, o coitadinho ta se entregando aos efeitos da quimioterapia, ta sofrendo pacas, e agora tentei fazer ele se alimentar,mas não dá cara, ele parece uma criança.

- Eu to surpreso de te ver tão envolvida, a sapata mais durona do hospital nunca demonstrou sinal de compaixão.

- Escuta Mona, bem que tu podia me quebrar essa, vai lá, tu tem jeito com criança, ele parece um garotinho, loirinho, tem gente na enfermaria que chama ele de anjo.

- Nem pensar, você sabe que eu não gosto dos pacientes que tão na quimio, não adianta ficar descrevendo as belas feições do tal anjo, não vou mesmo.

O tempo parece se fechar naquele momento e uma forte ventania toma toda a cidade . Olga continua sua oração.


“ ... sei senhor que meu filho não te agrada em tudo, conheço o que saiu de meu ventre, mas sei que o senhor tem grandes planos em sua vida, alivia meu Deus, alivia meu sofrimento, alivia meu Deus eu te suplico, alivia a dor de meu filho, te imploro pai, fazei ele resistir, daí forças e ele, traz o sorriso pro rosto do meu menino, eu sei que o senhor realiza grandes prodígios com um simples desejo seu, pois sei que suas obras as vezes confunde a mente dos sábios, trabalha a mente do meu filho Senhor Jesus...”

Camila estava em sua casa naquela noite, preocupada, parecia que algo lhe apertava o peito, ela pega o telefone, mas logo o devolve ao seu lugar.

- Não posso incomodar dona Olga em uma hora dessas.

Inconformada ele pega o telefone mais uma vez, mas liga pra seu primo Fabrício, jovem que se convertera a igreja evangélica há alguns meses.

- Alo! Quem fala?

- Oi Fabrício, sou eu sua prima Camila.

- Oi, me ligando a essa hora, só pode estar aprontando alguma.

-Não primo, preciso que você me de uma ajuda, meu namorado está internado, você sabe né?

- Sei, no Ofir Loiola, to sabendo, mas nem pensa em me pedir isso.

- Por favor primo, liga pra ele e pede pra cuidar do meu anjo...

- Camila? Você ta chorando? Te acalma prima, ele vai ficar bem!

- Eu sinto que ele não ta bem, por favor – suplicou Camila

Mesmo não se agradando de fazer aquela ligação, Fabrício a fez por sua prima.

Antes de atender o celular Elton sorri ao ver o numero de seu ex-namorado na tela

- Não acredito, Eliza, bem que você falou, aquele hipócrita ta me ligando de novo, eu não atendo esse crente de merda.

- Atende logo, cara, sabe-se La o que ele quer te ligando quase meia noite, que eu saiba tudo que é crente dorme que nem galinha.

-Ta certo, alô, espero que você tenha um bom motivo pra me ligar uma hora dessas, o será que se arrependeu de virar santo e decidiu aceitar sua vida de novo?

- Desculpe, Elton, não queria atrapalhar seu trabalho e tão pouco desertar de minha fé, to te ligando pra te fazer um pedido especial.

-Então pede logo que tenho que trabalhar.

- Tenho um amigo da igreja internado com Leucemia nesse hospital, se chama Cássio, preciso que você de um pouco de atenção a ele. É um rapaz frágil, parece um garoto.

Elton desliga o telefone e sorri, parecia que o universo estava conspirando pra que ele ajudasse aquele garoto.

“ ... Sei que meu filho tem o pecado no coração meu Deus, mas imploro por sua infinita misericórdia...”

Naquele momento a oração é interrompida pela ventania que consegue abrir a janela do quarto e revirar as paginas da bíblia, Olga coloca a mão sobre o livro, e se surpreende com a leitura destacada na pagina “ Esta voz lhe falou pela segunda vez: o que Deus purificou não chames tu de impuro” Livro de Atos 10:15


Cássio tentava dormir a horas, mas a forte dor de cabeça o impedia de relaxar, já havia desistido de orar, palavras já não conseguia formar em pensamentos, ele sentia falta de seu pai que toda noite orava perto dele ate que dormisse, e mais uma vez o incomodo barulho da mesa de rodinhas se aproxima outra vez.

- Eu já disse que não quero comer enfermeira.

- Errou feio anjinho rebelde, meu nome é Elton Portillo, e você vai comer por bem ou por mal.





2 comentários:

  1. ei ta bacana seria bom, assim como no livro vigiar e punir, o senhor conseguisse explorar todo o sofrimento. digo passa ele pl papel

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  2. está ficando muito bom
    to gostando de ver
    posta logo a 3° parte
    abraços

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