
1º PARTE
Em um fim de tarde, todos ocupavam seus lugares para assistir o culto dominical. o Pastor Fontoura inicia a reunião com uma fervorosa oração, os que chagam atrasados saúdam seus irmãos com a paz do Senhor. Ao fim da oração Cássio, o vocalista da banda musical, inicia um belo canto de louvor. O jovem cantor havia completado dezoito anos a pouco tempo, mas há muito tempo conseguia encantar a todos com sua voz suave, comparada por muitos com a voz de anjo, que associado a sua aparência de menino fazia muitos terem a impressão de estar vendo um anjo cantar em plena assembléia. Mas naquele fim de tarde o jovem anjo não conseguiu finalizar sua canção, sua namorada Camila, cantava no segundo microfone ao seu lado, foi ela que percebeu quando o rapaz empalideceu, seus olhos reviraram enquanto o microfone caia, Cássio teria caído se não fosse a ação de Camila, que o segurou a tempo.
Olga, sua mãe, perdeu o controle das emoções, mas logo foi acalmada por seu esposo, Caio. Entre os irmãos de assembléia havia uma médica que logo prestou socorro ao rapaz.
- Chamem uma ambulância, por favor. – Pediu Isabel, a medica, enquanto massageava o peito do rapaz.
- Irmã Isabel, o que há com meu filho? – perguntou o pai, mas o olhar da irmã Isabel parecia não saber a resposta.
Camila saiu cedo de casa, para visitar o namorado no hospital, no dia anterior a jovem havia ficado bastante abalada com os acontecimentos. A jovem era filha de uma senhora viúva, Dona Carmen, acompanhava sua filha em todos os momentos. No hospital mãe e filha batem a porta do quarto. Dona Olga é quem abre e de fora Camila visualiza o rosto angelical de seu namorado, que dormia serenamente.
- Que bom que vieram. – Agradeceu Dona Olga – entrem ele esta dormindo, mas vai gostar de saber que estiveram aqui.
Camila não deixa Dona Olga completar a frase e vai ate a cama onde seu namorado estava, por um instante ela apenas contempla o rosto do rapaz, mas sua mão não resiste e afaga os cabelos loiros.
- O que houve com o rapaz? – Perguntou Dona Carmen.
- Ninguém sabe ainda. – Respondeu Caio – logo cedo os médicos coletaram sangue, a noite lhe deram um coquetel de vitaminas, mas ninguém pode dizer a causa do desmaio ate fazerem os exames.
- Ele tem se alimentado bem? – perguntou Carmen novamente.
- Mãe! – Lhe respondeu Camila condenando as perguntas.
- Não ha problemas em perguntar? Disse Olga – Cássio realmente se alimenta mau, eu insisto pra que se alimente adequadamente mas ele parece que não tem vontade de comer, já lhe demos remédios para abrir o apetite mas não sei o que há com esse menino. Tenho orado por ele nas ultimas semanas, ele é um filho exemplar, sei que o Senhor atenderá minhas suplicas e não há de ser nada grave.
- Eu fiz uma oração forte ontem – disse Camila – pedi ao senhor livrasse meu Cássio de todo mau ou qualquer doença que possa estar se aproximando dele. A propósito Irmã Olga, nos do grupo da juventude faremos um momento de louvor hoje para pedir pela saúde dele.
- Ficamos honrados com toda essa dedicação, Camila – disse Caio – e estou certo que Cássio estará em casa hoje. Se ele não comparecer eu estarei La para representá-lo.
Naquele momento os olhos castanhos de Cássio se abriram, ele sorriu quando viu os longos cabelos negros de Camila caindo sobre os ombros, e o belo sorriso moreno da garota ao lhe ver acordado. A jovem o abraça com cuidado.
- Eu fiquei tão preocupada! É tão bom te ver sorrindo, Cássio.
- Oi Camila, também to feliz de ver você. – respondeu Cássio tentando se sentar.
- Não, amor, fica deitado, você tem que descansar. Fica ai mesmo.
Olga observava feliz a forma carinhosa com que Camila tratava seu filho. E ao mesmo tempo percebia que Cássio não correspondia todo aquele amor ofertado. Enquanto Caio e Carmem conversavam Olga observava cuidadosamente, Cássio sorria, mas era como se não estivesse sorrindo. A jovem o paparicava, fazia de tudo para agradá-lo, nesse momento ela volta seus pensamentos no tempo, quando Cássio era um adolescente. De sua infância ate aquela faze ele era um menino normal, mas aos treze anos ela notou que ele vivia isolado, sempre solitário, ate que conheceu um menino de sua idade na escola, e eles tornaram grandes amigos, inseparáveis
em tudo. Ate que um dia, de forma repentina, a amizade se acabou, eles não se falavam mais. Durante dois anos eles foram amigos fiéis e do nada tudo acabou, dali pra frente era como se seu filho vivesse apenas por viver, sempre em casa, estudando ou dormindo, quase nunca conversava com ninguém, quando alguém tentava se aproximar, o jovem não resistia, mas nunca tomava iniciativa de falar nada, suas falas quase sempre eram respostas limitadas a sim ou não. Certa vez ela perguntou o motivo de tanta tristeza.
- O que há com você, meu filho? Está sempre triste e não faz amigos, parece que falta algo em você, e seja La o que for esta te impedindo de ser feliz.
Ela percebeu um olhar diferente, era como se depois de anos de sono ele finalmente estava despertando.
- A senhora acha que parece estar faltando algo em mim, depois de muito tempo alguém em nossa família finalmente notou.
- Não nos culpe por isso, você nunca da abertura pra conversarmos. O que houve com seu amigo Mauricio, há tempos ele parou de ligar e não aparece mais por aqui também, sua tristeza é por causa disso?
- Não, não brigamos. Descobrimos que somos diferentes, nossas prioridades não são compatíveis.
- Prioridades? Do que você ta falando?
- Esquece, mãe .
- Esquece? Cássio, sou sua mãe, se houver algum problema eu quero saber, há anos vejo você viver como se fosse um vegetal, nunca está alegre com nada, não faz amigos não conversa com ninguém, e eu não sei o que fazer, filho, o que há com você?
Ela esperou por alguns segundos, e quando achou que a resposta não viria, ele finalmente fala.
- Me perdoe mãe, você tem razão. Há tempos tenho sido cativo em meu próprio corpo, sei que vivo distante e me fecho a todos. Quando Mauricio se afastou eu realmente fiquei triste, mas isso já passou, meu estado de isolamento nada tem com ele. Eu sou assim, mãe, gosto de viver calado no meu cantinho não tenho vontade de estar com os outros, prefiro estar só.
- Filho, respeito seu jeito de ser, mas ninguém pode viver assim por muito tempo, você tem que dar uma chance à vida, como saberá que é bom ter amigos se nunca tentar.
- E o que a senhora sugere? Que eu coloque anúncios nos jornais pra fazer amigos?
- Não, filho – disse Olga já sorrindo e tomando a mão do filho – comece a ir a Igreja com mais freqüência, La existem muitos jovens e jovenzinhas muito bonitas, tenho certeza que logo terá amigos e quem sabe até uma namoradinha.
- Mas eu tenho estado com vocês em todos os cultos da semana.
- Eu sei – interrompeu Olga – não me refiro ao simples ato de freqüentar, quero que participe torne-se membro ativo, nos grupos de juventude ou até mesmo nos ministérios de musica. Quando era adolescente você fez aulas de canto, e me lembro que cantava muito bem.
- Tudo bem, mas se não me sentir a vontade eu saio, certo?
- Feito, mas quero que você aceite Jesus, se entregue de corpo e alma filho, sei que sua vida vai mudar. Muitas vezes a ação de Deus na vida de uma pessoa deixa de acontecer por este não permitir que o espírito da verdade o guie,.o livro de Jeremias diz “ Invoca-me, e responderei, revelando-te grandes coisas misteriosas que ignoras” JER – 33:3, de uma chance ao senhor que eu sei que sua vida vai mudar.
Dias depois Cássio aceitou Jesus no culto dominical, em seguida iniciou sua participação no ministério de musica, e ali conheceu Camila, com quem namora atualmente. Olga volta ao presente em seus pensamentos, Cássio sorria enquanto conversava, ele parecia feliz, mas não a convencia. Apesar de não estar mais isolado como antes, de agora ter uma namorada e amigos na igreja, ela ainda via alguém solitário e distante. Quando estava só em casa ele ficava o tempo todo em seu quarto, em silencio, às vezes parecia estar dormindo de olhos abertos, deitado olhando para o nada, ela lembrava da palavras do filho “ Cativo em meu próprio corpo “ . Para ela aquelas palavras não faziam sentido, ou ele realmente era muito infeliz com sua vida, pensamentos desse tipo a incomodavam, que realidade era aquela afinal?
À tarde daquele dia o jovem recebeu alta medica e foi se recuperar em casa, a sua espera estava Maria, a empregada da casa, que o conhecia desde que era um garotinho e o amava como a um filho. Caio o ajudou a sair do carro, ele parecia fraco, mas conseguia andar, Maria não quis só olhar e foi ajudar.
- Anjinho, eu fiquei preocupada – disse Maria.
- oi, Mari, eu já estou melhor – respondeu - um pouco fraco, mas logo melhoro.
Ela o acompanhou ate o quarto, e logo em seguida foi preparar lanche reforçado. Caio e Olga despediriam de Cássio e foram tentar recuperar um dia de trabalho praticamente perdido. Enquanto estava só Cássio se certificou de que Maria estava na cozinha em seguida retirou debaixo do colchão um pequeno caderno e dentre as paginas uma foto, era Mauricio, que sorria na foto, trazendo saudades de uma bela amizade há muito destruída por razões que o jovem nunca comentava. Mas naquela tarde o sorriso do amigo estava manchado de sangue, por instantes ele ficou confuso, mas logo entendeu que aquele sangue escorrera do seu nariz enquanto observava a foto, surpreso ele não percebeu que Maria entrava no quarto trazendo seu lanche. Ao perceber ela tentou não demonstrar que estava preocupada, colocou a bandeja sobre uma cômoda e rapidamente providenciou uma toalha para limpar o rosto do rapaz.
- Maria, eu to sangrando – disse Cássio demonstrando aflição.
- Fica calmo meu anjinho, me deixa limpar você – ela o fez com todo cuidado – isso às vezes acontecia comigo quando eu era criança, não é nada demais. Pronto já está limpo.
Ela percebeu a foto manchada na cama, usando a ponta do avental a limpou, e logo percebeu de quem se tratava, mas tentou não demonstrar nenhuma surpresa.
- Toma já esta limpa, guarda ela antes que se suje com seu lanche. Você esta se sentindo bem?
Ele respondeu a pergunta com um sorriso, ela era fabulosa, parecia entendê-lo melhor que qualquer um, ainda sim nunca interferia ou perguntava qualquer coisa. Naquele instante ele sentiu vontade de falar, desabafar toda aquela tristeza com sua amiga.
- Sinto falta dele – disse Cássio.
- Já tentou procurar ele? – ela respondeu com a naturalidade de quem já conhecia a história.
- Infelizmente, minha amiga, isso é impossível, mas confesso que desejo fazer isso há muito tempo.
Maria sentou - se a beira da cama.
- A amizade de vocês era muito bonita, não importa o que tenha acontecido, não acho que seja tão forte ou importante a ponto de separar vocês.
- Quero te contar o que aconteceu, confio em você.
- Você não precisa fazer isso se não estiver pronto.
- Mauricio e eu sempre tivemos uma união forte, amigos inseparáveis e fieis. Tínhamos intimidade de irmãos, pura, sem nunca haver maldades ou qualquer malicia que você possa imaginar. Se você lembra bem, nos muitas vezes dormíamos juntos em meu quarto ou na casa dele, também no mesmo quarto. Mas quando passamos para o ensino médio algo aconteceu. Nos primeiros meses de aula ele passou a me evitar, ainda lembro o quanto aquilo me doía. Certa tarde eu o procurei, ainda posso ver seu olhar de desprezo.
- O que ta acontecendo com agente, amigo? – eu perguntei.
- Não aconteceu nada – ele respondeu, mas parecia distante e frio. E não encontrava mais a imagem do meu amigo.
- Você não tem sido o mesmo nos últimos meses – eu disse – se eu te fiz algo, por favor, me fala.
- Não é o que você fez, e sim o que sente – disse ele – vive querendo estar perto de mim, sempre grudado, isso ta pegando mal na escola, e esse seu jeitinho meigo, sei lá cara, pega mal mesmo. O que eu sinto por você é amizade, mas não sei o que você sente, na real, não sei qual é a sua.
- Santo Deus! - Exclamou Maria.
- Se você ficou assustada só de ouvir, então teria que ter visto as expressões dele enquanto dizia essas coisas. Mas a surpresa maior pra mim mesmo foi que a partir daquele instante eu não sabia se o que ele falava era verdade ou mentira. Não sei o que é esse estranho amor que sentia por ele, te confesso que desde que éramos crianças nunca fantasiei desejos por meu amigo, e nada mudou quando crescemos.
- Acho que toda essa xaropada dita por ele só te deixou confuso, Anjinho.
- Pode ser Maria, eu realmente não sentia desejos maliciosos por ele, mas por que isso ainda dói tanto aqui dentro, por que sinto tanta falta dele. Com o tempo ele tentou se aproximar, mas o que eu senti fez-me questionar tudo que eu acreditava ser. Achei que seria saudável manter ele longe, e é o que tenho feio até hoje.
- Acho que esse rapaz foi injusto com você, ele não merece um amigo tão especial, acho que só quem perdeu foi ele.
- O problema é que ate hoje eu nunca soube identificar o que sentia por ele. E se ele estivesse certo?
- Isso não justificaria sua reação, ele não deveria te tratar daquela forma, não tinha o direito de condenar um sentimento que não entendia.
- Soube depois que ele estava namorando uma menina na escola, achei estranho ele não te me contado, eles já estavam namorando muito antes de nossa discussão, não da pra saber se isso causou a mudança de personalidade dele, mas agora já não faz diferença pra mim.
Maria percebeu que ele respirava com dificuldades, parecia estar fazendo um grande esforço para falar. Era a primeira vez que o jovem lhe abria o coração e falava de tantas coisas que mantinha há muito guardado. No olhar, que às vezes se escondia por traz das mechas loiras, quando se revelava ela não via sinais de esperança, ele estava conformado com sua vida. Ela queria lhe dizer que outra pessoa poderia aparecer, mas como dizer isso, afinal, ele não deixou nada claro, ate aquele ponto da conversa parecia quem nem ele sabia o que sentia, muito menos sabia que tipo de pessoa era, ele não se conhecia, mas não parecia estar confuso. Maria decidiu deixá-lo descansar e saiu do quarto, ele escondeu a foto e deitou-se, seu corpo parecia exausto.
- Eu não fugi dele, fugi de mim mesmo – Ele sussurrou em voz baixa pouco antes de dormir.
Cássio dormiu profundamente por toda à tarde, apesar de sentir seu corpo cansado ele estava aliviado, pois havia dividido aquele fardo com alguém, mesmo que esse não tenha compreendido a mensagem, era bom falar. Enquanto dormia ele sonhou com Camila, Maria passava no quarto para ver se estava tudo bem, e notou um sorriso no rosto de seu Anjo.
Naquela noite o pastor Fontoura inicia culto da segunda com uma oração pedindo saúde ao jovem cantor, Camila inicia o primeiro canto, ao seu lado Otavio, jovem cantor que substituía Cássio. Caio e Olga estavam presentes, mesmo se sentindo exaustos por aquele dia difícil. As leituras da bíblia tinham como tema a cura dos enfermos. Em pouco tempo o jovem de voz de Anjo conquistou simpatia de todos naquela congregação.
Quando voltaram pra casa Cássio ainda dormia, Maria relatou a eles o caso do sangramento. Isso só aumentou a preocupação deles. O resultado do exame de sangue sairia na manhã seguinte, depois desse relato as expectativas só aumentaram. Enquanto jantavam eles conversaram.
- No começo achei que era baixa resistência – disse Olga – mas esse desmaio e agora o sangramento, pra um garoto tão pálido, ficar sangrando desse jeito.
- Ainda tem mais coisas, dona Olga – disse Maria – enquanto conversávamos a tarde ele ofegava só de falar, parecia que estava com falta de ar, logo depois disse que ia dormir, parecia cansado.
O que há algumas horas parecia uma situação simples agora começava a preocupar, Cássio nunca foi um garoto de praticar qualquer atividade física, não gostava de se alimentar e dificilmente se expunha a raios solares, o que fez com que adquirisse uma pele frágil e muito sensível, vulnerável a quaisquer tipo de alergia. Sua saúde era realmente frágil, e seus hábitos de vida dificultavam mais ainda a situação. Olga sabia que os problemas ultrapassavam as questões físicas, durante a noite enquanto deitada ela pensava a respeito, mas tudo aquilo era tão absurdo, e com tantos problemas era melhor não criar mais um.
As 07:00 hs Caio e Cássio foram ao consultório medico para saber do resultado do hemograma, já com o doutor Edmilson, evangélico e amigo da família. Ambos ficaram ansiosos enquanto o exame era avaliado, o doutor lia em silêncio, mas logo se levantou e pediu para Cássio o acompanhar até uma maca, tirasse a camisa e se deitasse. O jovem o fez sem nada perguntar. Ele tocou a região das amídalas e perguntou se o jovem sentia dores, a resposta foi negativa, logo depois tocou com cuidado o tórax na região do baço, novamente o jovem disse que não sentia dores no local. Logo ele pediu pra que ele se vestisse e voltasse a cadeira a lado de seu pai.
- Além desmaio, você tem percebido algum outro sintoma anormal nas ultimas semanas? – Perguntou o médico.
- Sim – respondeu Cássio – há dias tenho vontade de passar o dia inteiro dormindo, eu não estranharia se não fosse o fato de quando estou acordado estou todo tempo exausto, só de olhar uma escada já me sinto preguiça de subir.
- Você sempre foi assim, o que há de novidade no que falou? - Comentou ou o pai na tentativa de descontrair a conversa.
- Há mais uma coisa que não falei, pai, ontem antes de dormir eu sangrei muito pelo nariz enquanto conversava com Mari.
- Seu hemograma apresenta algumas anormalidades, anemia avançada e tronbocitopenia, isso explica a exaustão e o sangramento, mas a verdadeira causa não da pra saber, preciso de outros exames para um diagnostico preciso.
- Outros exames? – perguntou Caio aflito – o doutor suspeita de algo grave?
- Veja bem, Caio, o rapaz apresenta uma anemia surpreendente, isso não me assustaria se não houvesse em seu sangue a presença de hemácias e leucócitos mal formados, o que sugere uma suspeita de leucemia, mas só posso realizar um diagnostico preciso mediante a um mielograma e talvez uma pulsão lombar.
A palavra leucemia deixou pai e filho paralisados diante do medico, não encontravam forma de expressar a surpresa da situação.
- Quero que fique claro que isso é apenas uma suspeita – disse o medico – não posso afirma nada até que os exames sejam realizados, mas por hora lhe receito um polivitaminico e por enquanto nada de esforços, quero que me procurem se algo mais acontecer, verei se consigo agendar o mielograma para amanhã. Depois veremos se há necessidade de uma pulsão lombar.
- Não há de ser essa doença doutor Edmilson, nossa família nunca apresentou casos de câncer – disse Caio inconformado.
- Entenda, irmão Caio, a causa da leucemia ainda é desconhecida pela medicina, mas sabe-se que não é hereditária. Mas não se alarmem, hoje existem tratamentos muito eficazes pra essa doença, o importante é que se for confirmada deve ser imediatamente tratada.
Na volta pra casa, enquanto dirigia, Caio tentava tranqüilizar o filho, mas ele se manteve em silencio, perdido em pensamentos relaxa sob o assento do carro, já não parecia preocupado. Seu filho realmente não era como os outros rapazes de sua idade, qualquer outro estaria aflito se estivesse sob suspeita de leucemia, mas Cássio demonstrava não se importar, ficava ali sentado olhando para vazio, indiferente ate com os sentimentos dos pais. Assim Caio percebia seu filho.
“Uma doença mortal era o que estava faltando pra completar minha redenção total, meu “espinho na carne” por si só já não foi suficiente. Nem da pra saber se essa doença é um presente ou castigo de Deus, pra me aliviar desse mal carnal ou me castigar definitivamente por ele. Mas um dia li na bíblia que Deus não permite que sejamos tentados alem do que possamos suportar. Li também que se nos opusermos as tentações diabólicas, esse mal logo fugiria de nós. Já fiz tudo isso, não vacilei um só momento, me mantive fiel as leis de Deus, mas não houve mudanças, continuo sentindo coisas estranhas e abomináveis, quanto mais peço em orações mais me percebo em pensamentos pecaminosos. Eu detesto a idéia de beijar outro homem, não conseguiria me ver de mãos dadas com um rapaz nas calçadas do bairro, mas quando me aproximo de certos rapazes e sinto seu cheiro, eu sinto esse formigamento nas mãos e um calor intenso que parece me consumir. Melhor parar de pensar nisso e orar pra Deus me dar forças e não cair em tentações, agora mais do que nunca preciso das bênçãos de Jesus. ”
Assim que chegou
em casa Caio recebeu um telefonema do doutor Edmilson, que confirmava o mielograma para as nove da manha do dia seguinte, tudo Acontece rápido. A família se mantinha aflita, vários irmãos os visitaram naquela tarde, mas apesar de perecerem abatidos com as preocupações eles preferiram não comentar as suspeitas medicas. Camila tentou levar Cássio a igreja a noite, mas os pais preferiram que ele ficasse em casa, a jovem compreendeu. Mas para desespero de todos enquanto saia do quarto Cássio desmaia mais uma vez, Caio liga para Dr. Edmilson que em pouco tempo chega a residência. Cássio já estava acordado, mas parecia exausto, ele o examina mais uma vez e percebe uma pequena gota de sangue descendo sobre o lábio do rapaz.
- irmão Caio, até hoje pela manhã eu suspeitava que seu filho fosse portador de algum tipo de leucemia, mas infelizmente as coisas estão mais graves do que pensei, neste caso não há como esperar, vamos ao Instituto Ofir Loiola pedir internação imediata. Esse jovem preciso de cuidados médicos urgente.