domingo, 5 de dezembro de 2010

4º PARTE


NÃO TE DEITARAS COM UM HOMEM , COMO SE FOSSE MULHER: ISSO É UMA ABOMINAÇÃO " LEVÍTICO - 18:22.

Durante a manhã Olga examinou a lei de Moisés no livro de Levítico. Ela conhecia o filho e a muito tempo sabia o que se passava em seu coração, mas decidiu nunca tocar no assunto, ela preferia apresentar suas preocupações em oração, e sempre pedia a Deus que nunca permitisse que seu filho se entregasse a desejos abomináveis.
Em meio a todos aqueles pensamentos Olga voltou-se ao sofrimento do filho no leito de hospital, e  lembrou-se que seu filho era um grande servo de Deus, naquele momento ele precisava se sentir bem. E uma idéia lhe veio em mente. 

- Maria - disse Olga - quero que você me acompanhe em uma visita que farei a um amigo de Cássio.
- Sim, dona Olga, que amigo é esse?
- Você deve lembrar dele, o jovem chamado Mauricio, eles foram grandes amigos. preciso conversar com esse jovem.
O coração de Maria acelerou.

                                                          ******                                                                   

Caio caminha em direção ao leito do filho, ele se sentia culpado por ter deixado o filho só naquela noite. Ele caminhava lentamente, parecia não querer chegar a porta do salão de leitos, no fundo temia que o filho estivesse piorado seu estado clinico. 

- Oi, senhor Caio, muito bom dia - disse uma enfermeira daquele turno - o seu Anjinho Cássio acordou cedo hoje, já tomou café da manhã e está se preparando para sua próxima quimioterapia as nove da manhã. 
- Bom dia, Enfermeira, você disse que ele ... se alimentou?

Em resposta a enfermeira apenas acenou um gesto positivo e se foi pelos corredores, Caio imediatamente acelerou seus passos. a porta observou que  Cássio  estava deitado olhando para o vazio, mas sorria. seu rosto estava muito pálido e parecia se esforçar para respirar, Mas saber que ele havia se alimentado naquela manhã era algo para se comemorar. 

- Se sente melhor, filho?
- Oi, pai, não percebi sua aproximação.
- A enfermeira me informou que você se alimentou. 
- Sim, é verdade, mas não tive fome, apenas ouvi os conselhos de um novo amigo. existem pessoas em estado mais complicado que o meu aqui e estão resistindo. 

Caio não conteve o sorriso e com alegria levantou as mãos em um gesto de agradecimento a Deus. uma discreta lágrima se manifestou mas logo foi recolhida para que Cássio não a visse. 

- Em uma hora iniciarei outra cessão de quimioterapia. 

Caio se aproximou e segurou a mão do filho.

- Cássio você está quente filho, está com febre. melhor chamar uma enfermeira.

Durante a manhã Cássio recebeu as substancias da quimioterapia, e uma transfusão de sangue, seu corpo estava fraco, parecia-lhe que aquela primeira faze do tratamento era o período mais extenso de sua vida. A cada dia da fase de Remissão ele parecia mais fraco. A tarde daquele dia no horário de visitas, todos os pacientes recebiam amigos e parentes, Caio estava ao lado do leito de Cássio, eles conversavam, Olga entra na sala, não pode abraçar o filho, o jovem estava vulnerável e a pedido dos médicos deveria evitar contato direto com pessoas que o visitavam.

- Filho, um amigo seu veio lhe ver hoje, eu o encontrei e disse o que você estava passando, ele insistiu em vir te ver. precisei pedir autorização especial, você sabe como são limitadas as visitas neste setor.
- Que amigo é esse mãe?

Cássio olhou para a porta, e sentiu seu corpo tremer ao ver seu primeiro amor diante de seus olhos.

- Mauricio ? 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

3º PARTE


3º PARTE

A Palavra

Elton sentou-se em uma cadeira próximo a cama tendo nas mãos um prato de porcelana contendo alimento, Cássio observa sem entender o que aquele estranho estava fazendo ali, parecia estar determinado a fazê-lo comer, mas nunca havia o havia notado nas equipes do dia ou da noite.
- Você deve estar se perguntando quem sou eu, ou o que estou fazendo aqui. Na verdade vim aqui a pedido de um amigo, que esta preocupado com você, e me pediu pra ajudar.
- Que amigo é esse?
- Você é evangélico, na igreja que você participa há um membro chamado Fabrício, pediu pra eu cuidar de você.
- Cuidar de mim? - disse Cássio sentando-se na cama.- e você pretende ajudar me dando de comer?
- A menos que queira realmente morrer, comer é o mínimo que você pode fazer pra se ajudar.
- Todos vocês falam como se fosse fácil, ninguém imagina o que essas drogas estão me fazendo sentir.
- Já vi gente pior que você reagir bem melhor ao tratamento que você está fazendo. Trabalho com crianças, e acredite muitas delas estão em situação bem pior que você, mas estão resistindo, mesmo sob lagrimas não perdem a fé. Alias você é evangélico, teria que dar bons exemplos sabia.
Cássio sorriu com o ultimo comentário.
- Você não sabe nada sobre a minha vida, como pode questionar minha fé?
- tenho que admitir Anjinho, não sei nada mesmo. Mas parece que você conquistou todos os corações femininos desse hospital com seu lindo sorriso. A propósito o senhor poderia comer enquanto conversa comigo?
- Espero que não esteja pensando em colocar a comida na minha boca.
Elton olhou propositalmente para o Cateter Venoso no braço direito do rapaz, logo depois sorriu ironicamente.
- Deixa de ser orgulhoso, vai dizer que não admite que um homem coloque comida na sua boca. Bom trate de comer, estamos sós nesta sala, e você não perderá sua masculinidade se comer de aviãozinho comigo.
Ambos sorriram com aquele comentário, Cássio logo percebeu que se tratava de uma pessoa diferente das que ele costumava conversar, ele estranhou o fato de sorrir daquela forma com um desconhecido. Mas a forma de se expressar de Elton o surpreendia, pois ele conseguia repreender sem deixar desconfortável. Cássio comeu toda a refeição, e não percebeu que após dias era a primeira vez que não vomitava logo após se alimentar.
- De onde você conhece o Fabrício?
- Essa pergunta estava demorando a ser feita, mas tudo bem. Conheci seu irmão de igreja há uns três anos... nos tornamos amigos, e... logo depois que ele virou evangélico nos perdemos contato.
Cássio percebeu que Elton não se sentia bem ao falar daquele assunto, e voltou seus pensamentos há alguns meses no culto de domingo. O pastor Fontoura pergunta se naquele instante havia na assembléia alguém que quisesse aceitar Jesus naquela noite, e pra surpresa de todos um jovem chamado Fabrício se manifesta e se dirige até o Pastor.
- Eu aceito o senhor Jesus como meu salvador nesta noite pastor.
A assembléia comemorou o manifesto com palmas e frases de agradecimento.
- Mas eu gostaria de dar meu testemunho – pediu Fabrício.
O pastor Fontoura se aproximou do rapaz e sussurrou em seu ouvido.
- Você não precisa fazer isso Fabrício, pense bem nas conseqüências.
- Eu não vim aqui pra temer pessoas pastor Fontoura, tenho temor a um Deus verdadeiro, e sei que logo todos conheceram minha historia, sendo assim prefiro que saibam por mim mesmo.
Fabrício segurou firme no Microfone, virou-se para a assembléia, suspirou e por alguns segundos, fechou os olhos, em pensamentos pedia coragem a Deus para dar aquele testemunho.
- Meu nome é Fabrício, tenho 21 anos, antes de conhecer a palavra de Deus eu tinha uma vida de prazeres, em festas mundanas, geralmente bebia muito em boates, e por muito tempo tive uma vida promiscua. Tinha relações... me desculpem, eu praticava relações sexuais com outros homens. Ignorava completamente a vontade de Deus e zombava de suas leis. Mas há algumas semanas comecei a freqüentar os cultos e conheci a palavra de Deus, com a ajuda do pastor Fontoura hoje eu sei que não posso continuar minha vida dessa forma. Ate algumas horas atrás eu vivia um relacionamento amoroso com alguém de mesma idade que eu e mesmo sexo. Meu ex-parceiro ficou muito chocado com minha decisão, mas só eu sei o quanto estou sedento pelo espírito que alimenta a alma, e as bênçãos de Jesus. Amem irmãos e gloria a Jesus.
Todos se levantaram naquele instante, nada mais se podia ouvir alem das palmas e gritos de louvor de todos. Fabrício foi parabenizado por cada irmão naquela noite, e dali pra frente mudou sua vida, e circulo de amizades. Ate as roupas que vestia foram mudadas, e em pouco tempo o jovem parecia ser outra pessoa em comportamento e aparência.
Cássio volta sua atenção a Elton e decide fazer uma pergunta
- Você é igual ao Fabrício antes de se aceitar a Jesus?
Elton fez um minuto de silêncio, olhava surpreso para Cássio, pois não imaginava tamanha ousadia.
- Se você consegue iniciar uma pergunta dessas, então faça isso as claras anjinho, o que você quer saber?
- Você é...
- Quer saber se sou gay?
- Me desculpe não queria ofender você!
- Me ofender? Não me ofendi, relaxa, sou bem decidido na vida, ser gay ou admitir que sou já não é problema em minha vida ha muito tempo.
- Você não parece um... homossexual.
Elton sorriu com o ultimo comentário.
- Vocês evangélicos as vezes me fazem rir, nem todo o homossexual é obvio, muitos de nos preferimos manter um comportamento mais discreto, e aparência normal perante a sociedade, mas isso é opcional. Eu não condeno quem prefere soltar a mulher dentro de sí.
Ambos sorriram bastante com aquela conversa, há tempos Cássio não conseguia esquecer o mal estar dos remédios, e nem conseguia sorrir daquele jeito, mas naquela noite, aquele estranho o conseguiu fazer sorrir.
- Anjinho, eu tenho um segredo pra te contar, seu amigo Fabricio, era meu namorado.
- Sangue de Jesus!
- É serio, nos namorávamos há algum tempo, mas de uma hora pra outra aquele idiota decidiu negar quem é, e viver da ilusão de que poderá ser feliz, fingindo ser heterossexual.
- Acho que vocês homossexuais também tem uma visão errada de evangélicos. O amor que o ser humano tem a Deus o move a servir, e a decisão de sair do pecado não quer dizer que ele deixara de ser pecador. Ou que deixara de ser homossexual, no caso do Fabrício, seu amor se manifestou fervorosamente, ele estava faminto da palavra de Deus.
- Já chega Anjinho, essa conversa realmente não me faz bem, jamais entenderei essa questão de vocês. Adorei te conhecer espero que você consiga melhorar, e resistir ao tratamento. Mas tenho que ir.
- Posso te pedir uma coisa?
- Pode – disse Elton surpreso.
- Queria te ver de novo. Desculpe se eu disse algo que você não gostou, mas te agradeço por ter tentado me ajudar.
Elton se aproximou e tomou a mão de Cássio.
- Eu fico feliz de saber que ajudei um anjinho hoje, conte comigo, sempre que precisar estarei no setor infantil, se quiser falar comigo, peça a alguma das enfermeiras que elas me avisam.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

2º PARTE



2º parte
UM MILAGRE

Um dia depois, a tarde Maria comparece junto de Olga no leito de Cássio. Caio estava com ele, o jovem estava deitado de bruços, quando viu Maria não escondeu a felicidade em seu sorriso, ele pediu a ajuda do pai para levantar-se e abraçou sua amiga. Para Olga aquela reação era uma surpresa, afinal até onde ela conhecia seu próprio filho? Mas sem buscar a resposta ela prefere e se concentrar em outra questão.

- Querido, me conte tudo que aconteceu, o exame, ele tomou algum remédio?

- Vamos com calma querida – Respondeu Caio, e afastou sua esposa de Cássio.

- Meu anjinho, eu queria trazer umas guloseimas, sua mãe não deixou.

- Eu sei, Maria, isso aqui parece uma fortaleza cientifica, só se pode comer o que eles mandam.

- por que você estava deitado de costas daquele jeito, fizeram alguma cirurgia em você?

A pergunta de Maria fez com que o sorriso se desfizesse, por instantes ele fechou os olhos e se viu mais uma vez na sala da coleta, em segundos lembrou-se de tudo. Quando o mandaram deitar de bruços e permanecer imóvel, limparam com um anticéptico sua pele na região da bacia, era frio, os enfermeiros tentavam descontrair conversando, mas não conseguiam deixá-lo confortável ou seguro. Um anestésico foi aplicado na região, outra enfermeira se aproxima com uma bandeja contendo agulhas, seringas e objetos de vidro. Cássio fechou os olhos e buscou segurança em outro ser. Em seus pensamentos Senhor meu refugio, minha fortaleza, meu Deus eu confio em ti, o Senhor me livrará do laçador e da peste destruidora, o senhor me protegera com suas penas e debaixo de suas asas me refugiarei, seu braço é escudo e armadura não temerei o terror da noite”SALMO 91 versic1 a 5. ele abriu rapidamente os olhos e viu que uma seringa estranha com uma agulha bem maior que as normais estava nas mãos do enfermeiro, ele prefere ficar de olhos fechados, apesar de anestesiado, ele percebe quando a agulha é introduzida, a mão do enfermeiro o segura com cuidado tentando estabilizar os movimentos, ele sente uma forte pressão, o primeiro sinal de dor, o objeto que o penetrava fazia pressão em movimentos circulares, parecia um broca perfurando seu osso. A pressão parou, ele permaneceu de olhos fechados. O mandril foi removido e uma seringa contendo anticoagulante foi acoplada, uma forte pressão negativa foi aplicada, era a aspiração feita através do embolo da seringa sendo puxado varias vezes. O desconforto fazia com que o jovem se desconcentrasse de sua oração e varias vezes gemeu em protesto pela dor, logo o processo foi finalizado, a medula óssea foi coletada com sucesso.

Maria percebeu uma lagrima se revelando, aquela lembrança seja La do que for estava maltratando seu anjinho, ela o abraçou forte. Nada mais perguntou.

Caio conversava com Olga na cantina do hospital.

- Amor, quanto tempo leva pra termos os resultados desse mielograma?

- Querida eu já ataquei os enfermeiros desse hospital com mais perguntas do que você possa contar, os médicos estão preocupados com a anemia avançada de nosso filho...

- Avançada? Perguntou Olga segurando o esposo pelas mãos – como assim avançada, Caio?

- Hei! Querida, tanta se conter, por favor, por enquanto ainda não há riscos de morte, eles estão apressando os resultados, mas pelo visto isso levará uns três dias, parece que nosso garoto, alem de anêmico ta com a coagulação sangüínea baixa, por isso sangra pelo nariz. Os desmaios me deixam preocupado, os médicos preferem deixá-lo internado até que se confirmem os exames. O que se sabe pela ordem dos acontecimentos que se trata de uma leucemia.....

Caio suspirou naquele momento, finalmente o emocional sobrepôs a razão, ele abraçou sua esposa e chorou, como um garoto indefeso, afinal era seu único filho, exposto a uma doença mortal, aquele era um momento de todos ficarem unidos, pensou Olga, mas era difícil não emorcionar-se. Eles voltam para o quarto e se surpreendem ao ver o jovem debruçado sob o colo de sua amiga Maria que estava sentada na cama afagando as mechas loiras de seu anjo.

- Filho, preciso que você decida algo.

Cássio percebeu que os olhos de sua mãe haviam derramado lagrimas recentemente.

- Camila?

- É ela, liga sem parar querendo noticias, e como sua namorada ela tem o dever de se preocupar.

- Mãe, não quero que ninguém saiba do que se passa até que se confirme tudo – Disse Cássio levantando-se e caminhando até a janela do quarto – a ultima coisa que preciso agora é o olhar de pena das pessoas ou lamentos e palavras decoradas de conforto.

- Não posso concordar com você, filho – disse Caio com expressão reprovadora – Camila está sofrendo por você, não é justo tratá-la dessa maneira...

- Verdade, o senhor tem razão! – disse Cássio apontando pra fora da janela.

Todos se aproximaram para ver o que se passava, e na rua ao lado do hospital havia um grupo de jovens acenando, uma garota que estava sob os ombros de um rapaz levantava uma cartaz que dizia “ CÁSSIO NÓS TE AMAMOS, TENHA FÉ, JESUS TE AMA E VAI TE ABENÇOAR” , a garota era Camila junto de seus amigos do ministério de musica. Em casos como aquele as visitas eram restritas, mas ela havia improvisado outra forma de se comunicar, pois estava tentando contato por telefone, mas não conseguia resultados. Cássio logo desconfiou de como ela soube em que hospital ele estava, olhou fixo para Maria, e ao desviar seu olhar ela se denunciou. Mas naquele momento isso já não importava, ele sabia o quanto Maria se importava com o sentimento das pessoas, imaginou o quanto Camila deve ter insistido ou até mesmo chorado pra ter aquela informação. Mas que importância havia nisso, Cássio acena para o grupo, todos fazem a maior zoeira comemorando a atenção do rapaz.

Seria impossível manter segredo sobre o assunto, a noite daquele mesmo dia Olga se dirigiu a Assembléia da igreja para dar um testemunho de tudo que se passava com a saúde de seu filho. Cássio permanece internado por ordens dos médicos que o acompanham, dois dias se passam, uma transfusão de sangue foi feita, a anemia estava em um estagio critico. E a tarde do terceiro dia Dr Edmilson comparece ao hospital acompanhado da Dra Héllem, que acompanharia Cássio no tratamento a partir daquele dia, Caio e Olga os acompanharam ate uma sala para uma conversa particular, enquanto Maria e Camila acompanhavam Cássio. Sem saber que o resultado do mielograma estaria sendo discutido naquele instante.

Médicos e pais sentaram para conversar em uma sala de visitas do hospital. Dr Edmilson inicia a conversa estendendo o laudo dos exames para Caio. Que o lê, mas pouco compreende os termos descritos.

- Perdão irmão Edmilson, mas pouco compreendo o que diz o exame.

- O que suspeitávamos, irmão Caio, Cássio é portador de Leucemia Mieloide Aguda, tentarei explicar com calma, ouçam com atenção, pois seu conhecimento do assunto será muito importante nas etapas de tratamento:

“ leucemia é um tipo de doença maligna, um Câncer, que se inicia na medula óssea e depois se espalha pela corrente sanguínea. É resultado de uma deficiência adquirida, não herdada, no DNA das células em desenvolvimento na medula óssea, pra quem não sabe a medula óssea é popularmente conhecida como tutano, aquela substancia gordurosa contida no interior dos ossos. É na medula que são produzidas as células sanguíneas do nosso corpo, com esse tipo de leucemia essas células não perdem sua capacidade de reprodução, mas seu processo de formação é incompleto, e estas acabam perdendo a capacidade de realizar suas funções no nosso organismo. Tentem visualizar a gravidade da situação, as células atingidas realizam funções vitais em nosso organismo como a cicatrização, defesa contra infecções e doenças, distribuição de oxigênio a nosso corpo. Cássio se encontra em um estado alarmante que necessita de cuidados imediatos, o sangramento pelo nariz já é resultado de uma grave deficiência em suas plaquetas sanguíneas, isso pode causar hemorragias com muita facilidade, a falta de hemácias resultam na anemia e desmaios como também a falta de disposição, seus glóbulos brancos também foram gravemente afetados, isso o torna vulnerável a todos os tipos de doenças, para preveni-lo disso teremos que isolar o rapaz do contato de risco o quanto antes, visitas terão que ser evitadas e restritas aos parente mais próximos, isso sob todo o cuidado”

- Perdão! Irmão Edmilson – fala Olga – o senhor falou em iniciar o tratamento imediatamente, esse ... câncer, como podemos tratá-lo? Existe tratamento aqui nesse hospital?

- Existe sim senhora- interrompeu Dra Hellem- eu pretendo iniciá-lo, o quanto antes. Mas essa conversa está sendo realizada para que vocês saibam que o tratamento as vezes consegue ser mais difícil de suportar que a própria doença.

Olga logo se revelou preocupada com as palavras da doutora.

- o que a senhora quer dizer exatamente com isso?

- Dona Olga, seu filho será submetido a um tratamento de Quimioterapia, ministraremos um composto de substancias para tentar levá-lo ao que chamamos estado de remissão, que basicamente significa destruir o Maximo de células defeituosas que pudermos. Mas esse tratamento será feito em etapas. Seu menino terá que ser forte para resistir ao tratamento, que por experiência eu lhes digo que não atinge só o corpo, mas toda a estrutura psicológica da pessoa, quer pelos efeitos colaterais ou pelos traumas por eles gerados.

Eles escutaram tudo, e fizeram muitas perguntas por toda à tarde, Cássio passou por outros exames, até que depois de dois dias o tratamento finalmente começa. Os médicos pediram que se implantasse um cateter em uma artéria do rapaz. Esse era um objeto que tinha por finalidade ser um canal aberto para ministrar substancias diretamente na artéria do paciente sem que ele precisasse ser perfurado todas as vezes que recebesse medicamentos ou mesmo transfusões de sangue. O uso desse objeto foi sua primeira dificuldade, pois a idéia de ter um objeto implantado em seu braço era incomoda, assim como tornava seus movimentos limitados, durante cinco dias ele receberia cinco doses da quimioterapia, já no primeiro dia o jovem apresentou tonturas, vômitos e dores de cabeça.

Ao segundo dia Caio precisou levá-lo carregado ao banheiro, pois já não conseguia andar normalmente. Nesse dia o jovem se negou a comer, e a cada tentativa forçada ele vomitava tudo, sempre chorava muito. Para Caio que sempre o acompanhava era muito difícil não se desesperar ao ver o filho se entregar ao sofrimento daquele jeito.

No terceiro dia Cássio preocupou a todos, pois parecia não apresentar sentimentos nos olhos, parecia se entregar completamente ao sofrimento. Dessa vez era Caio que não se alimentava, aquele pai mesmo com todo o seu amor, estava atingindo seu limite. Os médicos pediram pra que ele ficasse em casa naquela noite. Ele não aceitou, mas logo se percebeu exausto demais para ajudar, poderia na verdade atrapalhar se ficasse doente. Pediu aos enfermeiros que dessem atenção especial ao filho e foi pra casa.

Naquela noite ele chegou em casa e encontra sua esposa em oração no quarto, e a interrompe.

- Olga, nosso filho ta se entregando a morte, vou tomar um banho, depois quero te acompanhar e orar junto, sinto que agora precisaremos de um milagre.

Olga não responde, se ajoelha próximo da cama, abre sua bíblia e de olhos fechados busca socorro no ser que ela acreditava ser sua maior esperança.

senhor meu Deus, senhor do impossível, escuta, por favor o clamor de uma mãe desesperada, que te suplica e implora por socorro, sei senhor o quanto sou pequena meu Deus diante da tua Gloria, mas hoje estou fraca e desesperado por ver meu filho caminhar na direção da morte, senhor afasta esse cálice de meu filho, preferia sofrer dez vezes mais tudo isso meu Deus a ver meu menino chorar...”






No instante em que Olga ora, no hospital a enfermeira Eliza tenta alimentar Cássio, mas ele se nega a comer, já sem paciência ela desiste de tentar e volta com o alimento para o refeitório, ali estavam os enfermeiros do setor infantil em seu intervalo, Eliza é avistada por um colega que vai até ela e a cumprimenta.

- Oi minha amiga, por que essa cara de tristeza?

- Oi Elton, não é tristeza, to com um paciente portador de Leucemia, o coitadinho ta se entregando aos efeitos da quimioterapia, ta sofrendo pacas, e agora tentei fazer ele se alimentar,mas não dá cara, ele parece uma criança.

- Eu to surpreso de te ver tão envolvida, a sapata mais durona do hospital nunca demonstrou sinal de compaixão.

- Escuta Mona, bem que tu podia me quebrar essa, vai lá, tu tem jeito com criança, ele parece um garotinho, loirinho, tem gente na enfermaria que chama ele de anjo.

- Nem pensar, você sabe que eu não gosto dos pacientes que tão na quimio, não adianta ficar descrevendo as belas feições do tal anjo, não vou mesmo.

O tempo parece se fechar naquele momento e uma forte ventania toma toda a cidade . Olga continua sua oração.


“ ... sei senhor que meu filho não te agrada em tudo, conheço o que saiu de meu ventre, mas sei que o senhor tem grandes planos em sua vida, alivia meu Deus, alivia meu sofrimento, alivia meu Deus eu te suplico, alivia a dor de meu filho, te imploro pai, fazei ele resistir, daí forças e ele, traz o sorriso pro rosto do meu menino, eu sei que o senhor realiza grandes prodígios com um simples desejo seu, pois sei que suas obras as vezes confunde a mente dos sábios, trabalha a mente do meu filho Senhor Jesus...”

Camila estava em sua casa naquela noite, preocupada, parecia que algo lhe apertava o peito, ela pega o telefone, mas logo o devolve ao seu lugar.

- Não posso incomodar dona Olga em uma hora dessas.

Inconformada ele pega o telefone mais uma vez, mas liga pra seu primo Fabrício, jovem que se convertera a igreja evangélica há alguns meses.

- Alo! Quem fala?

- Oi Fabrício, sou eu sua prima Camila.

- Oi, me ligando a essa hora, só pode estar aprontando alguma.

-Não primo, preciso que você me de uma ajuda, meu namorado está internado, você sabe né?

- Sei, no Ofir Loiola, to sabendo, mas nem pensa em me pedir isso.

- Por favor primo, liga pra ele e pede pra cuidar do meu anjo...

- Camila? Você ta chorando? Te acalma prima, ele vai ficar bem!

- Eu sinto que ele não ta bem, por favor – suplicou Camila

Mesmo não se agradando de fazer aquela ligação, Fabrício a fez por sua prima.

Antes de atender o celular Elton sorri ao ver o numero de seu ex-namorado na tela

- Não acredito, Eliza, bem que você falou, aquele hipócrita ta me ligando de novo, eu não atendo esse crente de merda.

- Atende logo, cara, sabe-se La o que ele quer te ligando quase meia noite, que eu saiba tudo que é crente dorme que nem galinha.

-Ta certo, alô, espero que você tenha um bom motivo pra me ligar uma hora dessas, o será que se arrependeu de virar santo e decidiu aceitar sua vida de novo?

- Desculpe, Elton, não queria atrapalhar seu trabalho e tão pouco desertar de minha fé, to te ligando pra te fazer um pedido especial.

-Então pede logo que tenho que trabalhar.

- Tenho um amigo da igreja internado com Leucemia nesse hospital, se chama Cássio, preciso que você de um pouco de atenção a ele. É um rapaz frágil, parece um garoto.

Elton desliga o telefone e sorri, parecia que o universo estava conspirando pra que ele ajudasse aquele garoto.

“ ... Sei que meu filho tem o pecado no coração meu Deus, mas imploro por sua infinita misericórdia...”

Naquele momento a oração é interrompida pela ventania que consegue abrir a janela do quarto e revirar as paginas da bíblia, Olga coloca a mão sobre o livro, e se surpreende com a leitura destacada na pagina “ Esta voz lhe falou pela segunda vez: o que Deus purificou não chames tu de impuro” Livro de Atos 10:15


Cássio tentava dormir a horas, mas a forte dor de cabeça o impedia de relaxar, já havia desistido de orar, palavras já não conseguia formar em pensamentos, ele sentia falta de seu pai que toda noite orava perto dele ate que dormisse, e mais uma vez o incomodo barulho da mesa de rodinhas se aproxima outra vez.

- Eu já disse que não quero comer enfermeira.

- Errou feio anjinho rebelde, meu nome é Elton Portillo, e você vai comer por bem ou por mal.





quarta-feira, 28 de outubro de 2009

1º PARTE



1º PARTE



Em um fim de tarde, todos ocupavam seus lugares para assistir o culto dominical. o Pastor Fontoura inicia a reunião com uma fervorosa oração, os que chagam atrasados saúdam seus irmãos com a paz do Senhor. Ao fim da oração Cássio, o vocalista da banda musical, inicia um belo canto de louvor. O jovem cantor havia completado dezoito anos a pouco tempo, mas há muito tempo conseguia encantar a todos com sua voz suave, comparada por muitos com a voz de anjo, que associado a sua aparência de menino fazia muitos terem a impressão de estar vendo um anjo cantar em plena assembléia. Mas naquele fim de tarde o jovem anjo não conseguiu finalizar sua canção, sua namorada Camila, cantava no segundo microfone ao seu lado, foi ela que percebeu quando o rapaz empalideceu, seus olhos reviraram enquanto o microfone caia, Cássio teria caído se não fosse a ação de Camila, que o segurou a tempo.

Olga, sua mãe, perdeu o controle das emoções, mas logo foi acalmada por seu esposo, Caio. Entre os irmãos de assembléia havia uma médica que logo prestou socorro ao rapaz.

- Chamem uma ambulância, por favor. – Pediu Isabel, a medica, enquanto massageava o peito do rapaz.

- Irmã Isabel, o que há com meu filho? – perguntou o pai, mas o olhar da irmã Isabel parecia não saber a resposta.



Camila saiu cedo de casa, para visitar o namorado no hospital, no dia anterior a jovem havia ficado bastante abalada com os acontecimentos. A jovem era filha de uma senhora viúva, Dona Carmen, acompanhava sua filha em todos os momentos. No hospital mãe e filha batem a porta do quarto. Dona Olga é quem abre e de fora Camila visualiza o rosto angelical de seu namorado, que dormia serenamente.

- Que bom que vieram. – Agradeceu Dona Olga – entrem ele esta dormindo, mas vai gostar de saber que estiveram aqui.

Camila não deixa Dona Olga completar a frase e vai ate a cama onde seu namorado estava, por um instante ela apenas contempla o rosto do rapaz, mas sua mão não resiste e afaga os cabelos loiros.

- O que houve com o rapaz? – Perguntou Dona Carmen.

- Ninguém sabe ainda. – Respondeu Caio – logo cedo os médicos coletaram sangue, a noite lhe deram um coquetel de vitaminas, mas ninguém pode dizer a causa do desmaio ate fazerem os exames.

- Ele tem se alimentado bem? – perguntou Carmen novamente.

- Mãe! – Lhe respondeu Camila condenando as perguntas.

- Não ha problemas em perguntar? Disse Olga – Cássio realmente se alimenta mau, eu insisto pra que se alimente adequadamente mas ele parece que não tem vontade de comer, já lhe demos remédios para abrir o apetite mas não sei o que há com esse menino. Tenho orado por ele nas ultimas semanas, ele é um filho exemplar, sei que o Senhor atenderá minhas suplicas e não há de ser nada grave.

- Eu fiz uma oração forte ontem – disse Camila – pedi ao senhor livrasse meu Cássio de todo mau ou qualquer doença que possa estar se aproximando dele. A propósito Irmã Olga, nos do grupo da juventude faremos um momento de louvor hoje para pedir pela saúde dele.

- Ficamos honrados com toda essa dedicação, Camila – disse Caio – e estou certo que Cássio estará em casa hoje. Se ele não comparecer eu estarei La para representá-lo.

Naquele momento os olhos castanhos de Cássio se abriram, ele sorriu quando viu os longos cabelos negros de Camila caindo sobre os ombros, e o belo sorriso moreno da garota ao lhe ver acordado. A jovem o abraça com cuidado.

- Eu fiquei tão preocupada! É tão bom te ver sorrindo, Cássio.

- Oi Camila, também to feliz de ver você. – respondeu Cássio tentando se sentar.

- Não, amor, fica deitado, você tem que descansar. Fica ai mesmo.

Olga observava feliz a forma carinhosa com que Camila tratava seu filho. E ao mesmo tempo percebia que Cássio não correspondia todo aquele amor ofertado. Enquanto Caio e Carmem conversavam Olga observava cuidadosamente, Cássio sorria, mas era como se não estivesse sorrindo. A jovem o paparicava, fazia de tudo para agradá-lo, nesse momento ela volta seus pensamentos no tempo, quando Cássio era um adolescente. De sua infância ate aquela faze ele era um menino normal, mas aos treze anos ela notou que ele vivia isolado, sempre solitário, ate que conheceu um menino de sua idade na escola, e eles tornaram grandes amigos, inseparáveis em tudo. Ate que um dia, de forma repentina, a amizade se acabou, eles não se falavam mais. Durante dois anos eles foram amigos fiéis e do nada tudo acabou, dali pra frente era como se seu filho vivesse apenas por viver, sempre em casa, estudando ou dormindo, quase nunca conversava com ninguém, quando alguém tentava se aproximar, o jovem não resistia, mas nunca tomava iniciativa de falar nada, suas falas quase sempre eram respostas limitadas a sim ou não. Certa vez ela perguntou o motivo de tanta tristeza.

- O que há com você, meu filho? Está sempre triste e não faz amigos, parece que falta algo em você, e seja La o que for esta te impedindo de ser feliz.

Ela percebeu um olhar diferente, era como se depois de anos de sono ele finalmente estava despertando.

- A senhora acha que parece estar faltando algo em mim, depois de muito tempo alguém em nossa família finalmente notou.

- Não nos culpe por isso, você nunca da abertura pra conversarmos. O que houve com seu amigo Mauricio, há tempos ele parou de ligar e não aparece mais por aqui também, sua tristeza é por causa disso?

- Não, não brigamos. Descobrimos que somos diferentes, nossas prioridades não são compatíveis.

- Prioridades? Do que você ta falando?

- Esquece, mãe .

- Esquece? Cássio, sou sua mãe, se houver algum problema eu quero saber, há anos vejo você viver como se fosse um vegetal, nunca está alegre com nada, não faz amigos não conversa com ninguém, e eu não sei o que fazer, filho, o que há com você?

Ela esperou por alguns segundos, e quando achou que a resposta não viria, ele finalmente fala.

- Me perdoe mãe, você tem razão. Há tempos tenho sido cativo em meu próprio corpo, sei que vivo distante e me fecho a todos. Quando Mauricio se afastou eu realmente fiquei triste, mas isso já passou, meu estado de isolamento nada tem com ele. Eu sou assim, mãe, gosto de viver calado no meu cantinho não tenho vontade de estar com os outros, prefiro estar só.

- Filho, respeito seu jeito de ser, mas ninguém pode viver assim por muito tempo, você tem que dar uma chance à vida, como saberá que é bom ter amigos se nunca tentar.

- E o que a senhora sugere? Que eu coloque anúncios nos jornais pra fazer amigos?

- Não, filho – disse Olga já sorrindo e tomando a mão do filho – comece a ir a Igreja com mais freqüência, La existem muitos jovens e jovenzinhas muito bonitas, tenho certeza que logo terá amigos e quem sabe até uma namoradinha.

- Mas eu tenho estado com vocês em todos os cultos da semana.

- Eu sei – interrompeu Olga – não me refiro ao simples ato de freqüentar, quero que participe torne-se membro ativo, nos grupos de juventude ou até mesmo nos ministérios de musica. Quando era adolescente você fez aulas de canto, e me lembro que cantava muito bem.

- Tudo bem, mas se não me sentir a vontade eu saio, certo?

- Feito, mas quero que você aceite Jesus, se entregue de corpo e alma filho, sei que sua vida vai mudar. Muitas vezes a ação de Deus na vida de uma pessoa deixa de acontecer por este não permitir que o espírito da verdade o guie,.o livro de Jeremias diz “ Invoca-me, e responderei, revelando-te grandes coisas misteriosas que ignoras” JER – 33:3, de uma chance ao senhor que eu sei que sua vida vai mudar.

Dias depois Cássio aceitou Jesus no culto dominical, em seguida iniciou sua participação no ministério de musica, e ali conheceu Camila, com quem namora atualmente. Olga volta ao presente em seus pensamentos, Cássio sorria enquanto conversava, ele parecia feliz, mas não a convencia. Apesar de não estar mais isolado como antes, de agora ter uma namorada e amigos na igreja, ela ainda via alguém solitário e distante. Quando estava só em casa ele ficava o tempo todo em seu quarto, em silencio, às vezes parecia estar dormindo de olhos abertos, deitado olhando para o nada, ela lembrava da palavras do filho “ Cativo em meu próprio corpo “ . Para ela aquelas palavras não faziam sentido, ou ele realmente era muito infeliz com sua vida, pensamentos desse tipo a incomodavam, que realidade era aquela afinal?

À tarde daquele dia o jovem recebeu alta medica e foi se recuperar em casa, a sua espera estava Maria, a empregada da casa, que o conhecia desde que era um garotinho e o amava como a um filho. Caio o ajudou a sair do carro, ele parecia fraco, mas conseguia andar, Maria não quis só olhar e foi ajudar.

- Anjinho, eu fiquei preocupada – disse Maria.

- oi, Mari, eu já estou melhor – respondeu - um pouco fraco, mas logo melhoro.

Ela o acompanhou ate o quarto, e logo em seguida foi preparar lanche reforçado. Caio e Olga despediriam de Cássio e foram tentar recuperar um dia de trabalho praticamente perdido. Enquanto estava só Cássio se certificou de que Maria estava na cozinha em seguida retirou debaixo do colchão um pequeno caderno e dentre as paginas uma foto, era Mauricio, que sorria na foto, trazendo saudades de uma bela amizade há muito destruída por razões que o jovem nunca comentava. Mas naquela tarde o sorriso do amigo estava manchado de sangue, por instantes ele ficou confuso, mas logo entendeu que aquele sangue escorrera do seu nariz enquanto observava a foto, surpreso ele não percebeu que Maria entrava no quarto trazendo seu lanche. Ao perceber ela tentou não demonstrar que estava preocupada, colocou a bandeja sobre uma cômoda e rapidamente providenciou uma toalha para limpar o rosto do rapaz.

- Maria, eu to sangrando – disse Cássio demonstrando aflição.

- Fica calmo meu anjinho, me deixa limpar você – ela o fez com todo cuidado – isso às vezes acontecia comigo quando eu era criança, não é nada demais. Pronto já está limpo.

Ela percebeu a foto manchada na cama, usando a ponta do avental a limpou, e logo percebeu de quem se tratava, mas tentou não demonstrar nenhuma surpresa.

- Toma já esta limpa, guarda ela antes que se suje com seu lanche. Você esta se sentindo bem?


Ele respondeu a pergunta com um sorriso, ela era fabulosa, parecia entendê-lo melhor que qualquer um, ainda sim nunca interferia ou perguntava qualquer coisa. Naquele instante ele sentiu vontade de falar, desabafar toda aquela tristeza com sua amiga.

- Sinto falta dele – disse Cássio.

- Já tentou procurar ele? – ela respondeu com a naturalidade de quem já conhecia a história.

- Infelizmente, minha amiga, isso é impossível, mas confesso que desejo fazer isso há muito tempo.

Maria sentou - se a beira da cama.

- A amizade de vocês era muito bonita, não importa o que tenha acontecido, não acho que seja tão forte ou importante a ponto de separar vocês.

- Quero te contar o que aconteceu, confio em você.

- Você não precisa fazer isso se não estiver pronto.

- Mauricio e eu sempre tivemos uma união forte, amigos inseparáveis e fieis. Tínhamos intimidade de irmãos, pura, sem nunca haver maldades ou qualquer malicia que você possa imaginar. Se você lembra bem, nos muitas vezes dormíamos juntos em meu quarto ou na casa dele, também no mesmo quarto. Mas quando passamos para o ensino médio algo aconteceu. Nos primeiros meses de aula ele passou a me evitar, ainda lembro o quanto aquilo me doía. Certa tarde eu o procurei, ainda posso ver seu olhar de desprezo.

- O que ta acontecendo com agente, amigo? – eu perguntei.

- Não aconteceu nada – ele respondeu, mas parecia distante e frio. E não encontrava mais a imagem do meu amigo.

- Você não tem sido o mesmo nos últimos meses – eu disse – se eu te fiz algo, por favor, me fala.

- Não é o que você fez, e sim o que sente – disse ele – vive querendo estar perto de mim, sempre grudado, isso ta pegando mal na escola, e esse seu jeitinho meigo, sei lá cara, pega mal mesmo. O que eu sinto por você é amizade, mas não sei o que você sente, na real, não sei qual é a sua.

- Santo Deus! - Exclamou Maria.

- Se você ficou assustada só de ouvir, então teria que ter visto as expressões dele enquanto dizia essas coisas. Mas a surpresa maior pra mim mesmo foi que a partir daquele instante eu não sabia se o que ele falava era verdade ou mentira. Não sei o que é esse estranho amor que sentia por ele, te confesso que desde que éramos crianças nunca fantasiei desejos por meu amigo, e nada mudou quando crescemos.

- Acho que toda essa xaropada dita por ele só te deixou confuso, Anjinho.

- Pode ser Maria, eu realmente não sentia desejos maliciosos por ele, mas por que isso ainda dói tanto aqui dentro, por que sinto tanta falta dele. Com o tempo ele tentou se aproximar, mas o que eu senti fez-me questionar tudo que eu acreditava ser. Achei que seria saudável manter ele longe, e é o que tenho feio até hoje.

- Acho que esse rapaz foi injusto com você, ele não merece um amigo tão especial, acho que só quem perdeu foi ele.

- O problema é que ate hoje eu nunca soube identificar o que sentia por ele. E se ele estivesse certo?

- Isso não justificaria sua reação, ele não deveria te tratar daquela forma, não tinha o direito de condenar um sentimento que não entendia.

- Soube depois que ele estava namorando uma menina na escola, achei estranho ele não te me contado, eles já estavam namorando muito antes de nossa discussão, não da pra saber se isso causou a mudança de personalidade dele, mas agora já não faz diferença pra mim.

Maria percebeu que ele respirava com dificuldades, parecia estar fazendo um grande esforço para falar. Era a primeira vez que o jovem lhe abria o coração e falava de tantas coisas que mantinha há muito guardado. No olhar, que às vezes se escondia por traz das mechas loiras, quando se revelava ela não via sinais de esperança, ele estava conformado com sua vida. Ela queria lhe dizer que outra pessoa poderia aparecer, mas como dizer isso, afinal, ele não deixou nada claro, ate aquele ponto da conversa parecia quem nem ele sabia o que sentia, muito menos sabia que tipo de pessoa era, ele não se conhecia, mas não parecia estar confuso. Maria decidiu deixá-lo descansar e saiu do quarto, ele escondeu a foto e deitou-se, seu corpo parecia exausto.

- Eu não fugi dele, fugi de mim mesmo – Ele sussurrou em voz baixa pouco antes de dormir.

Cássio dormiu profundamente por toda à tarde, apesar de sentir seu corpo cansado ele estava aliviado, pois havia dividido aquele fardo com alguém, mesmo que esse não tenha compreendido a mensagem, era bom falar. Enquanto dormia ele sonhou com Camila, Maria passava no quarto para ver se estava tudo bem, e notou um sorriso no rosto de seu Anjo.

Naquela noite o pastor Fontoura inicia culto da segunda com uma oração pedindo saúde ao jovem cantor, Camila inicia o primeiro canto, ao seu lado Otavio, jovem cantor que substituía Cássio. Caio e Olga estavam presentes, mesmo se sentindo exaustos por aquele dia difícil. As leituras da bíblia tinham como tema a cura dos enfermos. Em pouco tempo o jovem de voz de Anjo conquistou simpatia de todos naquela congregação.

Quando voltaram pra casa Cássio ainda dormia, Maria relatou a eles o caso do sangramento. Isso só aumentou a preocupação deles. O resultado do exame de sangue sairia na manhã seguinte, depois desse relato as expectativas só aumentaram. Enquanto jantavam eles conversaram.

- No começo achei que era baixa resistência – disse Olga – mas esse desmaio e agora o sangramento, pra um garoto tão pálido, ficar sangrando desse jeito.

- Ainda tem mais coisas, dona Olga – disse Maria – enquanto conversávamos a tarde ele ofegava só de falar, parecia que estava com falta de ar, logo depois disse que ia dormir, parecia cansado.

O que há algumas horas parecia uma situação simples agora começava a preocupar, Cássio nunca foi um garoto de praticar qualquer atividade física, não gostava de se alimentar e dificilmente se expunha a raios solares, o que fez com que adquirisse uma pele frágil e muito sensível, vulnerável a quaisquer tipo de alergia. Sua saúde era realmente frágil, e seus hábitos de vida dificultavam mais ainda a situação. Olga sabia que os problemas ultrapassavam as questões físicas, durante a noite enquanto deitada ela pensava a respeito, mas tudo aquilo era tão absurdo, e com tantos problemas era melhor não criar mais um.


As 07:00 hs Caio e Cássio foram ao consultório medico para saber do resultado do hemograma, já com o doutor Edmilson, evangélico e amigo da família. Ambos ficaram ansiosos enquanto o exame era avaliado, o doutor lia em silêncio, mas logo se levantou e pediu para Cássio o acompanhar até uma maca, tirasse a camisa e se deitasse. O jovem o fez sem nada perguntar. Ele tocou a região das amídalas e perguntou se o jovem sentia dores, a resposta foi negativa, logo depois tocou com cuidado o tórax na região do baço, novamente o jovem disse que não sentia dores no local. Logo ele pediu pra que ele se vestisse e voltasse a cadeira a lado de seu pai.

- Além desmaio, você tem percebido algum outro sintoma anormal nas ultimas semanas? – Perguntou o médico.

- Sim – respondeu Cássio – há dias tenho vontade de passar o dia inteiro dormindo, eu não estranharia se não fosse o fato de quando estou acordado estou todo tempo exausto, só de olhar uma escada já me sinto preguiça de subir.

- Você sempre foi assim, o que há de novidade no que falou? - Comentou ou o pai na tentativa de descontrair a conversa.

- Há mais uma coisa que não falei, pai, ontem antes de dormir eu sangrei muito pelo nariz enquanto conversava com Mari.

- Seu hemograma apresenta algumas anormalidades, anemia avançada e tronbocitopenia, isso explica a exaustão e o sangramento, mas a verdadeira causa não da pra saber, preciso de outros exames para um diagnostico preciso.

- Outros exames? – perguntou Caio aflito – o doutor suspeita de algo grave?

- Veja bem, Caio, o rapaz apresenta uma anemia surpreendente, isso não me assustaria se não houvesse em seu sangue a presença de hemácias e leucócitos mal formados, o que sugere uma suspeita de leucemia, mas só posso realizar um diagnostico preciso mediante a um mielograma e talvez uma pulsão lombar.

A palavra leucemia deixou pai e filho paralisados diante do medico, não encontravam forma de expressar a surpresa da situação.

- Quero que fique claro que isso é apenas uma suspeita – disse o medico – não posso afirma nada até que os exames sejam realizados, mas por hora lhe receito um polivitaminico e por enquanto nada de esforços, quero que me procurem se algo mais acontecer, verei se consigo agendar o mielograma para amanhã. Depois veremos se há necessidade de uma pulsão lombar.

- Não há de ser essa doença doutor Edmilson, nossa família nunca apresentou casos de câncer – disse Caio inconformado.

- Entenda, irmão Caio, a causa da leucemia ainda é desconhecida pela medicina, mas sabe-se que não é hereditária. Mas não se alarmem, hoje existem tratamentos muito eficazes pra essa doença, o importante é que se for confirmada deve ser imediatamente tratada.

Na volta pra casa, enquanto dirigia, Caio tentava tranqüilizar o filho, mas ele se manteve em silencio, perdido em pensamentos relaxa sob o assento do carro, já não parecia preocupado. Seu filho realmente não era como os outros rapazes de sua idade, qualquer outro estaria aflito se estivesse sob suspeita de leucemia, mas Cássio demonstrava não se importar, ficava ali sentado olhando para vazio, indiferente ate com os sentimentos dos pais. Assim Caio percebia seu filho.

“Uma doença mortal era o que estava faltando pra completar minha redenção total, meu “espinho na carne” por si só já não foi suficiente. Nem da pra saber se essa doença é um presente ou castigo de Deus, pra me aliviar desse mal carnal ou me castigar definitivamente por ele. Mas um dia li na bíblia que Deus não permite que sejamos tentados alem do que possamos suportar. Li também que se nos opusermos as tentações diabólicas, esse mal logo fugiria de nós. Já fiz tudo isso, não vacilei um só momento, me mantive fiel as leis de Deus, mas não houve mudanças, continuo sentindo coisas estranhas e abomináveis, quanto mais peço em orações mais me percebo em pensamentos pecaminosos. Eu detesto a idéia de beijar outro homem, não conseguiria me ver de mãos dadas com um rapaz nas calçadas do bairro, mas quando me aproximo de certos rapazes e sinto seu cheiro, eu sinto esse formigamento nas mãos e um calor intenso que parece me consumir. Melhor parar de pensar nisso e orar pra Deus me dar forças e não cair em tentações, agora mais do que nunca preciso das bênçãos de Jesus. ”

Assim que chegou em casa Caio recebeu um telefonema do doutor Edmilson, que confirmava o mielograma para as nove da manha do dia seguinte, tudo Acontece rápido. A família se mantinha aflita, vários irmãos os visitaram naquela tarde, mas apesar de perecerem abatidos com as preocupações eles preferiram não comentar as suspeitas medicas. Camila tentou levar Cássio a igreja a noite, mas os pais preferiram que ele ficasse em casa, a jovem compreendeu. Mas para desespero de todos enquanto saia do quarto Cássio desmaia mais uma vez, Caio liga para Dr. Edmilson que em pouco tempo chega a residência. Cássio já estava acordado, mas parecia exausto, ele o examina mais uma vez e percebe uma pequena gota de sangue descendo sobre o lábio do rapaz.

- irmão Caio, até hoje pela manhã eu suspeitava que seu filho fosse portador de algum tipo de leucemia, mas infelizmente as coisas estão mais graves do que pensei, neste caso não há como esperar, vamos ao Instituto Ofir Loiola pedir internação imediata. Esse jovem preciso de cuidados médicos urgente.